Marco das Três Fronteiras — Uma viagem de pelo menos 400 anos pela história

Com a exceção das Cataratas do Iguaçu, o Marco das Três Fronteiras é, de longe, o atrativo turístico mais antigo de Foz do Iguaçu. O marco em si, o obelisco de pedra que marca fronteiras, foi construído no local em 1903. O marco argentino, no outro lado do rio, é da mesma data por serem os dois, parte do mesmo fato histórico.

Imagem de drone do Marco das Três Fronteiras

Até 1972, o “marco de pedra” não estava no roteiro de visitação turística embora o local fosse visitado por autoridades, diplomatas e militares com frequência, entre eles os rebeldes da Coluna Prestes em 1924 e o general (marechal) Cândido Rondon em visita de inspeção em 1933, como testemunha uma plaquinha de bronze no local.

Com o início da construção da Usina de Itaipu e a vinda de mais gente, cresceram tanto a curiosidade, como a visitação ao Marco de Fronteiras. Em 1976 e 1977, com a criação dos Voos de Turismo Doméstico (VTDs), o Marco viu um salto no número de visitantes. Milhares de turistas puderam ter acesso ao marco de fronteira mais famoso do Brasil e da América do Sul. Só para ilustrar, no trecho de 25 quilômetros de fronteira seca entre Brasil e Argentina, há 310 marcos de fronteira, todos da mesma leva de 1903, porém somente os marcos desta região são encontrados em roteiros turísticos atualmente.

Chegando ao Complexo

Quem visita o complexo de atrações é recebido no Centro de Visitantes, onde, logo à frente, se vê os guichês e totens para a compra de ingresso. Mas mesmo antes de passar pelos guichês, os visitantes percebem, à esquerda de quem entra, uma série de estátuas, entre elas um senhor crucificado. Esta estátua original foi utilizada no filme The Mission (A Missão, 1986) de Rolland Joffe, estrelado por Jeremy Irons e Robert de Niro, com música de Ennio Morricone. Sobre o filme, o jornalista Sérgio Vaz, do site 50 Anos de Cinema, classifica: “uma superprodução, um épico, um grande afresco, com centenas e centenas de figurantes, e grandes tomadas em plano geral para caber essa horda de pessoas, a floresta, as quedas d’água monumentais”. Uma TV, no espaço que homenageia o The Mission, mostra cenas do filme, gravadas nas Cataratas do Iguaçu e enche o ar com o som inesquecível da trilha sonora.

Marco das Três Fronteiras ao entardecer. (Foto: Marcos Labanca)

O filme conta a história de um evento histórico complexo, vivido na região das Três Fronteiras, ligado à formação, perseguição e destruição das Missões Jesuíticas. A missão representada no filme, era a de Santa Maria del Iguazú — mesmo nome historicamente dado às Cataratas do Iguaçu.

Tendo o The Mission como recepcionista, o Marco convida o visitante a mergulhar na história do descobrimento das Cataratas em 1542, pelo espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, designado pela coroa espanhola para assumir como governador da Província do Prata, com sede em Buenos Aires. Descobrindo que Buenos Aires havia sido destruída pelos índios da região e impossibilitado de prosseguir por mar até o destino, Cabeza de Vaca faz uma parada na Ilha de Santa Catarina (então espanhola) de onde monta uma expedição para a viagem a Assunção, a pé. Foi nessa viagem, que Cabeza de Vaca avistou as Cataratas do Iguaçu, tornando-se o primeiro não índio a ver ou, pelo menos, a registrar a existência dos Saltos de Santa Maria do Rio Iguaçu. Na altura do atual Marco das Três Fronteiras, a expedição atravessou para o Paraguai.

Marco das Três Fronteiras no período da noite, com as luzes e fontes acesas. (Foto: Marco Labanca)

Saindo do edifício Centro de Visitantes, turistas e moradores locais se encontram em uma das duas praças do complexo turístico de entretenimento. É a praça das Missões. Olhando para trás, está uma réplica da fachada de uma Missão Jesuítica, onde na parede não faltou a inscrição “Ad Majorem Dei Gloria” (que dedica a Missão ao interesse maior que é a Glória de Deus). O próximo passo é desembocar, após a travessia de um pórtico, na Praça que traz o visitante para a modernidade: a Praça do Marco. É aqui onde está o Marco das Três Fronteiras, pintado com as cores do Brasil e situado em um local de onde é possível ver o seu equivalente no lado argentino da fronteira.

De noite as luzes se acendem e evidenciam a estrutura inspirada nas reduções jesuíticas. (Foto: Marcos Labanca)

O marco celebra o final de uma época de perigosa divergência entre Brasil e Argentina, que durou mais de 50 anos. Ambos países reclamavam o encontro dos rios Chapecó e Iguaçu como um dos limites de seus territórios. A questão só foi resolvida após o veredito do laudo arbitral do presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland, em 1895. Finalmente, em 1899, Brasil e Argentina assinam o acordo definitivo de fronteiras com o Brasil. As comissões de fronteira dos dois países começaram o longo e árduo trabalho de delimitação in situ, especialmente nas áreas de fronteira seca. Terminada essa verificação foram colocados um marco de fronteira em cada lado do rio Iguaçu — um no Brasil e outro na Argentina.

Uma das fontes, portal e o obelisco. (Foto: Rafael Bechlin)

Dos Marco das Três Fronteias do Brasil e Argentina, vê-se o Marco de Fronteira do Paraguai, pintado com as cores nacionais do país: vermelho, azul e branco. O formato do marco paraguaio não tem o formato de obelisco de seus equivalentes brasileiro e argentino. O marco paraguaio não está ligado a nenhum fato de delimitação fronteiriça. O obelisco de lá foi inaugurado em 1960 como uma homenagem da hoje extinta Associação Paraguaia de Caminhos aos 150 anos do país. A associação promovia a construção de estradas no país. Na época, anterior à Ponte Internacional da Amizade e da Ruta (Rodovia) Nacional 1, não havia ligação terrestre entre Assunção e a fronteira.

Por fim, quem está no Marco das Três Fronteiras do Brasil, olhando na direção de seu equivalente argentino, verá o Rio Iguaçu, com águas de tonalidade esverdeada escura, ou escura. Ele vem das Cataratas do Iguaçu, cerca de 19 quilômetros rio acima. O rio Iguaçu vem do planalto da Região Metropolitana de Curitiba. À direita de quem observa, desce o rio Paraná, de águas com tonalidade amarronzada em época de vazão normal. Ele vem da Itaipu Binacional. A origem dele é no Planalto Central e transporta águas de rios como o Rio Tietê. O destino é o Oceano Atlântico, logo abaixo da cidade de Buenos Aires.

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