Santos DumontSantos Dumont troca viagem de luxo na rota das capitais sul-americanas para embrenhar-se no mato de Foz do Iguaçu à Curitiba

A passagem de Santos Dumont pelo Paraná foi rápida e, pode-se dizer, imprevista e não programada, mas para a história do Parque Nacional do Iguaçu, do Paraná e do turismo ligado às Cataratas do Iguaçu, esse capítulo e trecho de sua viagem intercontinental e transamericana, foi de muita importância tanto ambiental, como econômica. É uma viagem que ficou fora dos livros de história, mas que, justamente por ser improvisada e ter sido realizada como uma missão, revela muito do caráter, da personalidade, interesses e da tendência de estar sempre à frente de seu tempo, que caracterizou o Pai da Aviação do Brasil.

Entre 1897 e 1910 Santos Dumont se dedicou a projetos e construção de uma série de balões, dirigíveis e aviões. Em 1899, ele ganhou o primeiro prêmio pela performance de seu balão Amérique, em Paris. Foram dois balões, 13 dirigíveis além dos aviões 14-bis e Demoiselle. Em 13 anos de permanência e trabalho na França, ele atingiu as alturas e garantiu seu lugar na história da aviação mundial. Em 1910, ele se aposenta por problemas de saúde, que não lhe permitiam fazer tanto esforço físico na nova etapa da aviação, que já incluía conquistas de prêmios por voos de longa distância, como o de Louis Blériot 1909, que cruzou o Canal da Mancha, entre a França e Inglaterra.

Avião Demoiselle
Avião Demoiselle

Começava uma nova etapa no mundo dos aviões e as coisas andariam, a partir daí, em uma velocidade fenomenal. Só para ilustrar, em 1º de janeiro de 1914, aconteceu o primeiro voo transportando um passageiro pagante. Foi um voo de 23 minutos em um anfíbio entre Saint Petersburg e Tampa. O primeiro passageiro foi o prefeito de Saint Petersburg. Ele pagou US$ 400 pelo voo. Logo depois o preço estabilizou em US$ 5 numa época em que cinco dólares equivaliam a 100 dólares de hoje. A “linha aérea”, funcionou até março e fechou por falta de apoio.

Santos Dumont permanece na França até 1915, quando decide voltar ao Brasil para se dedicar ao convívio social, de novo em prol da aviação. No final desse ano, ele já estava nos Estados Unidos onde participou no IIº Congresso Científico Pan-Americano, realizado em Washington (DC) entre 27 de dezembro de 1915 e 8 de janeiro de 1916.

IIº Congresso Científico Pan-Americano em 1915
IIº Congresso Científico Pan-Americano em 1915

No dia 1º de março de 1916, Santos Dumont se encontra em Santiago, Chile, para participar na 1ª Conferência de Aeronáutica Pan-Americana. Nessa conferência ele foi representante oficial do Congresso Científico Pan-Americano realizado em Washington, meses antes. Nessa conferência, Santos Dumont discursou sobre o futuro da aviação e profetizou que um dia, aviões levariam mais de 20 passageiros a bordo. Após a conferência do Chile, ele prossegue viagem por terra para Buenos Aires.

Da capital argentina, onde Santos Duomont foi muito bem recebido, ele decide conhecer as Cataratas do Iguaçu, localizadas na então impenetrável selva do Território de Misiones, na fronteira com o Brasil, sua terra natal. Os barcos a vapor, de carga e passageiros, já ligavam Buenos Aires a Posadas, capital de Misiones. De lá, vapores menores cobriam o trecho entre Posadas e Puerto Aguirre (Puerto Iguazú), onde chega na manhã do sábado, 22 de abril de 1916. Se aloja no precário Gran Hotel, de Leandro Arrechea, no barranco do rio Iguaçu. É, a partir deste ponto, que o imprevisível entra no roteiro de Santos Dumont e mudará a região e o Paraná.

Por obra do destino, Frederico Engel, dono de um hotel, no que hoje é Avenida Brasil, no centro da cidade de Foz do Iguaçu (atual HSBC/Bradesco), soube que havia chegado um vapor no porto de Puerto Aguirre, em frente ao atual bairro Porto Meira, às margens do rio Iguaçu, no lado brasileiro. Como sempre fazia, quando sabia que chegara barco novo no porto, Engel fazia uma visita para observar as coisas, saber quem veio e, especialmente, ver se poderia captar algum hóspede. Foi em uma dessas averiguações sobre os passageiros do vapor, que Frederico Engel descobriu que Santos Dumont havia desembarcado e estaria hospedado no hotel do concorrente, Leandro Arrechea.

Fredrico Engel volta à Vila Iguassú (o então nome da cidade de Foz do Iguaçu), o mais rápido que pôde, e vai direto falar com o prefeito Jorge Schimmelpfeng. A princípio o prefeito não se impressionou e até questionou o que a vila poderia oferecer a um homem como Santos Dumont. Engel não se entregou, conseguiu convencer o prefeito a designar uma comissão para falar com Santos Dumont e convidá-lo à ver as Cataratas do Iguaçu, também do lado brasileiro.

Tudo deu certo, Santos Dumont aceitou o convite. Dois dias após ter chegado em Puerto Aguirre, no dia 24 de abril de 1916, Santos Dumont atravessa o rio de volta ao Brasil, utilizando o caminho mais curto, pelo rio Iguaçu. Hospeda-se no Hotel Brasil, de Engel. No livro de hóspedes ele escreveu, “Nome: Santos Dumont — Nacionalidade: brazileiro — Procedência: Buenos Aires — Destino: Rio de Janeiro — Chegada: 24–04–1916”.

Cataratas do Iguaçu
Cataratas do Iguaçu

No mesmo dia, à tarde, Santos Dumont e a equipe de Engel, partem para as Cataratas pelo lado brasileiro. A viagem durou seis horas, a cavalo. Santos Dumont dormiu duas noites em um pequeno “hotel” às margens das Cataratas. Foi nessa hospedagem, ainda sofrida e improvisada, que o conjunto de quedas conquistaram Santos Dumont. Nas horas de conversa com Engel e equipe, Dumont descobriu que a área das Cataratas havia sido doada pela antiga Colônia Militar a um particular.

Lembra que na ficha de hóspedes, ele disse que o destino da viagem era Rio de Janeiro? O destino mudou. Depois de remoer a informação ele sentenciou: — “Essas maravilhas não podem pertencer a um particular”, em seguida anunciou a mudança de rota: — “Vou à Curitiba falar com o Presidente”, disse. E assim foi, porque Santos Dumont era decidido. Em seguida veio a ordem: — “prepare uns cavalos porque amanhã mesmo parto para Guarapuava”. A viagem de surpresa durou seis dias entre as cidades de Foz do Iguaçu e Guarapuava. A partir daí, já havia estrada razoável para Ponta Grossa, nos Campos Gerais do estado do Paraná, por onde ele chegaria a Curitiba, de trem. A cidade vibrou com a visita do ilustre patrício, onde ficou por três dias, “paparicado pelas autoridades e pela população”.

Santos Dumont ao meio, de chapéu preto.
Santos Dumont ao meio, de chapéu preto. No lado esquerdo da imagem está o então presidente do Paraná, Afonso Camargo e ao lado direito o Eneas Marques, advogado e Secretário do Interior. O pequeno menino, de branco é o Alípio Camargo, futuramente empresário.​

Em Curitiba, hospedou-se no Grande Hotel Moderno e foi ciceroneado pelo, então secretário de Interior e Justiça, o advogado Enéas Marques. Visitou a escola com seu nome e foi saudado pela população no Estádio de Futebol do Atlético Paranaense. Foi recebido para jantar na casa do presidente do Estado, Affonso Camargo. Ele visitou, ainda, Morretes e Paranaguá. De volta à Curitiba, Santos Dumont é finalmente recebido no gabinete do presidente do estado no dia 8 de maio, onde apresentou o pedido de que o Paraná criasse um parque para proteger as quedas e possibilitar a visita de mais pessoas às Cataratas do Iguaçu.

O presidente do Paraná prometeu que o faria, e cumpriu. Em julho do mesmo ano, foi publicado o Decreto Estadual nº 653, desapropriando a área de 1.008 hectares, cedida anos antes, de maneira legal, ao colono espanhol Jesús Val, pela Colônia Militar do Iguassú (primeiro nome de Foz do Iguaçu, antes de se chamar Vila Iguassu). Ao currículo do desportista, aeronauta e inventor, foi acrescentada a bem sucedida atuação como ativista por uma causa ambiental aproveitada, de maneira próspera, pelo turismo num futuro próximo.

Lembrado nacionalmente

A Lei 12.625 de 2012, instituiu o dia 8 de maio como o Dia Nacional do Turismo. A data defendida pelo Paraná, lembra o dia em que Santos Dumont foi recebido pelo presidente Affonso Camargo. O Paraná sugeriu e o Brasil aceitou que Santos Dumont, em seu papel de promotor do futuro Parque Nacional do Iguaçu, fosse também considerado como o Pai do Turismo do Paraná e do Brasil.