Uma empresa familiar, criada para atender a comunidade árabe, hoje atende a todos os grupos étnicos da Terra das Cataratas

Super Ghada é o nome de um pequeno mercado que está há 24 anos no número 473, da Rua Jorge Samways, no Centro de Foz do Iguaçu. Mas, antes disso, funcionando em outro local, a abertura do Ghada coincide com a chegada de Mohamed Mehana a Foz do Iguaçu, há 30 anos. Filho de libaneses já nascidos no Brasil, ele vem de Santa Mariana, no Norte pioneiro do Paraná, dos cafezais. Havia, quando ele nasceu, pelo menos 10 famílias árabes na cidadezinha que hoje conta com 12 mil habitantes. O número de famílias árabes na cidade caiu. “Duas famílias continuam lá”, contou Mohamed.

Fachada do mercado
Fachada do mercado

Desde o começo do Super Ghada — que sempre teve esse nome — houve uma tendência a trazer produtos pensando na comunidade árabe da fronteira que, comparada com a de Santa Mariana, era enorme e, na realidade, é a segunda maior do Brasil. “Continuamos oferecendo produtos de qualidade para a comunidade árabe”, disse. “Mas, prosseguiu, como a variedade de etnias é grande em Foz do Iguaçu, nós atendemos com produtos diferenciados, que conquiste clientes de todas as etnias”, revela.

Quem entrar na loja, verá logo à direita, um balcão de frutas e verduras. São frutas de boa qualidade, como pimentões verdes, vermelhos, amarelos, tomates, cenouras, bananas. Ele lembra que verduras são muito importantes na cozinha árabe. Seguindo em frente, vem uma área onde se vê produtos como hashi (os pauzinhos para comer), molho shōyu, wasabi — pasta verde picante que dá sabor à comida e arranca lágrimas do comensal; arroz japonês, macarrões e outros itens dirigidos a japoneses e amantes da comida japonesa, de todas as etnias de Foz do Iguaçu, inclusive gaúchos, nordestinos e paraguaios que já adotaram shōyu ou wasabi para suas comidas.

CerejasSeção de frutas e verdurasTomates
Cerejas, a seção de frutas e verduras e tomates.

Não muito longe do arroz japonês, procurando, o cliente encontra óleo de coco, azeite de dendê e outros itens utilizados por brasileiros. “Temos tudo, claro, levando em consideração, o nosso espaço”, contou.

Já faz tempo que os moradores de Foz do Iguaçu adotaram o pão árabe, que eles chamam realmente de “pão árabe” e não como os paulistas, que o chamam de “pão sírio”. O pão árabe, que conquistou todas as raças de Foz do Iguaçu, é o comum. Quem estiver curioso, pode conhecer outras variedades. Uma delas é o pão árabe integral, pensado para clientes fitness e fãs das comidas naturais. “Esse, nós recebemos na quinta-feira”, explica. Mas há também o pão folha, o meia folha e o pão redondo. “O pão-folha é igual ao pão árabe normal. A diferença é o formato dele”, explica.

O famoso pão árabeMohamad preparando o pão árabeCoalhada e homus
O famoso pão árabe. Mohamad preparando o pão árabe com coalhada e homus.

Mas, já que o mercado tem nome árabe, Ghada além de ser nome de mulher, também significa “horizonte”. O coração do estabelecimento fica à esquerda de quem entra e é lá, exatamente do lado que fica o coração, onde está a prateleira de produtos árabes, a maioria importados do Líbano. Embora também haja produtos da Jordânia, Síria e Turquia, que não é um país árabe, mas, quando se fala em gastronomia os dois povos se entendem, pois a cozinha árabe foi muito influenciada pelos turcos e vice-versa.

Mohamed destaca a grande variedade de favas, que se encontram em uma das primeiras prateleiras da seção de produtos importados árabes. “São diferentes variedades de favas”, comenta. Ele avisa que a fava é muito usada nos pratos do café-da-manhã. “O café da manhã árabe é robusto. É muito importante para os árabes. O almoço pode até passar batido, mas o café-da-manhã tem que ser reforçado”, explica. Na prateleira, as favas são acompanhadas pelas lentilhas, grão-de-bico e até fava com grão de bico.

Outros produtos muito importantes e que não podem faltar, são os chás. Ao lado dos chás estão os cafés, também importados, aos quais se acrescentam cardamomo. “Aqui estão os cafés com cardamomo”, diz Mohamed, mostrando uma fileira de pacotes de café importados do Líbano. Ele explica que esse café é brasileiríssimo, exportado para o Líbano in natura. Lá, ele é torrado, moído com cardamomo e distribuído para o mercado libanês e países vizinhos. “Esse aqui, por exemplo, é o Café Najjar, o grão é brasileiro, foi para o Líbano e voltou”, conta. Já o cardamomo, é a semente de uma planta da família do gengibre, usada como tempero em todo o mundo. Casas especializadas no Brasil já estão oferecendo café com cardamomo. As diferentes ofertas de café importados, não impedem que apareça nas prateleiras cafés populares brasileiros, como o café Pilão, afinal, como lembra Mohamed, o Ghada serve a todas as etnias e bolsos.

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Os temperos também estão presentes. São temperos para carne, frango, saladas. Uma das estrelas é o zattar, uma mistura moída de tomilho, orégano, manjerona, gergelim torrado e outros sabores, que pertencem a variadas receitas. Uma variedade de zattar é o zattar halabi para carne, muito utilizado para fazer mini pizza. Mohamad lembra que uma conhecida panificadora de Foz do Iguaçu, adquire uma boa quantidade de “zattar halabi” para fazer uma de suas criações. Anote o nome: “croissant de zattar”.

O trigo é muito importante na cozinha árabe. Há trigo fino e trigo grosso para kibe, há trigo verde e há kshik — uma receita libanesa de inverno, feita com trigo triturado — e pronto para usar e fazer sopas. Há também lentilhas para sopas, tanto das variedades brasileiras, como as especialidades libanesas, tal qual a lentilha vermelha partida. “Lembro de um chef do Hotel das Cataratas, que adotou a lentilha partida no cardápio e fez o maior sucesso. Ele vinha aqui toda semana garimpar produtos e não deixava de levar a lentilha vermelha”, contou, celebrando o fato da culinária árabe já ter caído no gosto brasileiro. “Um dia a comida árabe vai ser como a comida chinesa — você vai encontrar um restaurante árabe em todas as cidades”, destaca Mohamad.

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Outro produto que não pode faltar em um mercado árabe é a berinjela. No Super Ghada, há desde berinjelas frescas, expostas na área dedicada às verduras, até as berinjelas em lata ou em conserva, como a mini berinjela recheada com nozes e a berinjela em pasta, chamada babaganush ou babaganouche — uma salada feita de purê de berinjela assada ou grelhada, tahine e suco de limão, entre outros produtos com o famoso legume.

Tem mais: tâmaras de várias procedências, entre elas, as Tâmaras Medjoul, do rio Jordão na Jordânia, com frutas grandes, de sabor suave. Azeitonas árabes in natura, sementes de abóbora, pimentas vermelhas, alho curtido no azeite e mel de romã, são parte da variedade à disposição ao lado de água de rosa — usado para aromatização de uma grande variedade de doces árabes, que no Brasil recebem nomes como manjar turco, delícia turca, bala de goma síria, bala de goma árabe, como podem ser conferidos em diversas docerias árabes em Foz do Iguaçu.

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Nesta prateleira se encontra, ainda, uma grande curiosidade: as folhas de parreiras (uvas) em conserva, prontas para serem usadas na confecção do famoso charuto de folhas de uvas, que também já caiu no gosto dos brasileiros. Uma das dificuldades de quem se dispõe a fazer charuto de folhas de uva em casa, é encontrar parreiras de onde colher as folhas.

Como a proposta do mercado é oferecer produtos diferenciados, para diferentes etnias e culturas, o Ghada não esqueceu dos consumidores vegetarianos. É o caso de uma boa oferta de alimentos, produtos livres de glúten e lactose, que atendam a visão de mundo de vegetarianos e veganos. Embora não seja livre de glúten, chama a atenção a salsicha vegetal, produzida por uma empresa associada à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Aí está mais um ingrediente, na grande variedade de produtos oferecidos pelo Super Ghada aos clientes que fazem porte da população diversificada de Foz do Iguaçu.

Escrito por Jackson Lima | Produtor de Conteúdo